Mitchell cerrou os dentes, a raiva fervilhando logo abaixo da superfície. Beth parecia frágil e pálida, como se já estivesse quebrada muito antes de atravessar a porta.
Nenhum dos dois olhou para mim.
Hail então entrou e caminhou até a mesa do promotor com a mesma calma que demonstrava durante as operações. O homem não estava fingindo. Ele não demonstrava nenhuma autoconfiança.
Ele simplesmente tinha isso dentro de si.
O juiz entrou.
O tribunal se levantou.
E o processo começou.
O promotor público começou com uma história simples.
Megan Kemp, minha irmã, uma contadora respeitada, começou a apresentar sintomas inexplicáveis. Ela confiava em certos membros da família mais do que deveria. Esses familiares abusaram do acesso dela às informações, saquearam suas contas, falsificaram seus registros médicos e, por fim, a envenenaram com uma substância imprópria para consumo humano.
A defesa apresentou objeção nos primeiros cinco minutos, alegando que se tratava de especulação.
O juiz não hesitou um instante antes de mandá-los embora.
Inicialmente, falava-se em granizo.
Ele respondeu às perguntas como se tivesse escrito o roteiro ele mesmo. Calmo. Direto. Puros fatos. Conduziu o tribunal através da cronologia dos fatos. Os saques bancários que correspondiam exatamente à rotina de Mitchell. Os laudos médicos acessados pelo endereço IP de sua casa. A compra de compostos de arsênico pelo depósito. Os prontuários médicos adulterados. As refeições envenenadas.
As imagens, granuladas, mas inconfundíveis, mostram Mitchell colocando pó na bebida de Megan.
Naquele instante, Mitchell se remexeu na cadeira e se inclinou para a frente como se quisesse se levantar para corrigir a projeção na tela. Seu advogado segurou seu braço e sussurrou algo urgente até que ele se recostasse novamente.
Mantive minha respiração calma.
Rever o vídeo não teve o mesmo efeito que da primeira vez.
Dessa vez, a sensação foi menos de golpe e mais de confirmação.
A prova de que meu instinto e o da minha irmã nunca falharam.
Em seguida, o promotor passou para a gravação de áudio da reunião no estacionamento. Minha voz preencheu a sala a princípio, profissional e calma. Depois, as vozes deles ecoaram pelos alto-falantes, apressadas, sobrepostas e cheias de contradições.
"Deixa para lá."
Esqueça os arquivos.
Não há absolutamente nenhuma razão para investigar isso.
E a pior delas, dita por Beth, foi ainda mais mordaz que as demais:
Tudo o que ela possuía, morreu com ela.
O tribunal ficou em silêncio quando aquelas palavras ecoaram. Até os repórteres pararam de digitar.
Mitchell encarava a mesa com tanta intensidade que parecia querer incendiar a madeira.
Quando a gravação terminou, a juíza não escondeu sua reação. Seu maxilar se contraiu e ela respirou fundo pelo nariz. Eu já havia visto essa mesma expressão antes em oficiais comandantes pouco antes de medidas disciplinares.
A defesa tentou salvar o caso convocando testemunhas de caráter. Alguns colegas. Um vizinho. Um conhecido da família que afirmou que Mitchell jamais faria mal a alguém.
O promotor refutou cada uma das alegações, comparando-as com as provas. O interrogatório não foi um massacre.
Foi um procedimento cirúrgico.
Eficiente.
Preciso.
E então eles me ligaram.
Hail acenou com a cabeça, tranquilizando-me enquanto eu caminhava para a frente, mas eu não precisava disso. Eu já havia testemunhado perante tribunais militares. Sabia como manter o equilíbrio. Tomei meu lugar no banco das testemunhas, coloquei a mão sobre o juramento e me sentei ereta.
O promotor público começou fazendo as perguntas mais básicas. Meu histórico. Meu relacionamento com Megan. Meu serviço militar. Meu papel como parente sobrevivente.
Depois disso, ela passou para a parte mais difícil.
Quando você suspeitou pela primeira vez que algo estava errado?
Respondi a tudo com clareza. As mensagens da minha irmã. Os sintomas dela. Os documentos desaparecidos. O medo na voz dela quando disse que estava sendo vigiada. Descrevi os bilhetes que ela havia deixado. O pânico na caligrafia dela. As tentativas dela de se proteger sem preocupar ninguém.
Cada palavra soava determinada.
Sem problemas.
Sem decoração.
A verdade dela não precisava de enfeites.