Assim que meu marido foi embora, meu enteado paralítico, levantou da cadeira de rodas para salvar a minha vida
Concordei em silêncio.
Na varanda, Lucas, meu enteado de dez anos, permanecia imóvel na cadeira de rodas. Cabeça caída, olhar vazio, corpo frágil. Os médicos haviam sido categóricos: lesão cerebral irreversível, paralisia total, sem fala.
Ricardo o encarou com uma expressão triste que eu sempre julguei verdadeira.
— Cuide bem dele — disse. — É tudo o que me restou dela.
Entrou no carro e partiu.
A casa mergulhou em um silêncio pesado.
A rotina e o primeiro sinal estranho
Por volta das dez da manhã, segui a rotina habitual: trocar a fralda, alimentar, higienizar, ler histórias.
Ricardo não aceitava cuidadores nem visitas. Dizia que era para preservar a privacidade, que não queria estranhos observando a “tragédia” do filho.
Enquanto eu lia, um cheiro diferente alcançou meu nariz. Primeiro fraco, quase imperceptível. Depois voltou, mais intenso.
Verifiquei a fralda de Lucas automaticamente. Estava limpa.
Fui até a cozinha. Tudo parecia normal: fogão desligado, botões intactos. Pensei que fosse coisa da minha cabeça. Ricardo costumava brincar que eu era distraída, exagerada, sempre vendo problemas onde não existiam.
Mas o cheiro retornou e agora não havia dúvidas.
O gás
A tontura veio de repente. A cabeça pesada, um sono estranho, fora do normal. Cambaleei até o armário onde ficava o botijão de gás.
Assim que abri a porta, ouvi o som inconfundível do vazamento.
O regulador estava fora do lugar.
Tentei ajustá-lo, mas minhas mãos tremiam. As pernas falharam. Caí no chão da cozinha, com o coração acelerado e a visão escurecendo.
Pensei em Lucas. Pensei que não conseguiria protegê-lo.