Lucas se levanta
Então ouvi o som da cadeira.
Depois, passos. Passos firmes.
Alguém se aproximou do botijão. Mãos rápidas, seguras. O regulador foi arrancado e o vazamento cessou.
Forcei os olhos. Era Lucas, em pé.
Sem o corpo rígido, sem o olhar perdido. Estava atento, lúcido, assustadoramente adulto.
— Não grite — sussurrou. — O papai planejou nos matar hoje.
O ar voltou aos meus pulmões de forma brusca. Tossia, chorava, tentando entender. Tudo o que eu acreditava desmoronou.
A verdade começa a fazer sentido
Lucas abriu as janelas, ligou os ventiladores e me deu água com calma.
— Isso não foi acidente — explicou, apontando o regulador. — Veja os arranhões. Alguém mexeu com ferramenta. E a borracha de vedação sumiu.
Balancei a cabeça, ainda em choque.
— Ele nunca cometeria um erro desses. Sempre foi extremamente cuidadoso.
Lucas então listou tudo com precisão assustadora: o portão trancado por fora, as janelas vedadas antes da saída, a ordem para não sair de casa, o seguro de vida renovado recentemente.
— Se você desmaiasse e eu continuasse “incapaz”, uma faísca resolveria tudo. Pareceria um acidente.
Senti o ar faltar novamente.
Então ele disse algo impossível:
— Eu nunca fui paralítico. Eu só fingi.
Contou sobre a morte da mãe, os freios sabotados, o pai presente no “acidente”. Fingir a deficiência foi a forma que encontrou para sobreviver. Tudo se encaixava.
A câmera escondida
O telefone tocou. Era Ricardo.
Em segundos, Lucas voltou para a cadeira, retomando a postura torta e o olhar vazio.
Atendi tentando controlar a voz. Ricardo perguntou sobre janelas, cheiros, gás. Cada pergunta parecia um teste. Respondi com cautela.
Quando desliguei, desabei.