Quacy ficou ali parado.
O marido dela.
Mas não o homem de que ela se lembrava.
Seus olhos estavam frios, sem qualquer reconhecimento. Ele vestia um robe de seda — o robe dela — e em seu pescoço repousava, inconfundível e recente, uma mancha de batom vermelho vivo.
— Ah — disse ele com indiferença, quase divertido. — Você já voltou.
Zelica sentiu o mundo inclinar-se.
'Quacy...' Sua voz tremia. 'Por que minha chave não funciona?'
— Porque eu troquei as fechaduras — respondeu ele secamente, enquanto seu corpo ainda bloqueava a entrada.
Ouviam-se risadas vindas do apartamento.
Leve e ágil. Despreocupada. Feminina.
— Querida — disse uma voz de forma brincalhona e preguiçosa —, quem está aí? Se for um advogado, mande-o ou ela embora.
Uma mulher apareceu na tela.
Jovem. Bonita. Confiante.
Ele disse.
Zelica a reconheceu imediatamente: a modelo do Instagram, sempre impecavelmente produzida, sempre em busca de atenção online. A mulher que a deixava desconfortável muito antes daquele momento, embora ela nunca tivesse conseguido explicar o porquê.
Aniya vestia o roupão de seda de Zelica. O mesmo que Zelica havia comprado para si mesma no ano passado, para o aniversário de casamento delas.
Os olhos de Aniya percorreram lentamente o olhar de Zelica: suas roupas de viagem amassadas, seu rosto cansado, sua mala barata.
— Ah — disse Aniya, com um sorriso nos lábios. — Então não é um advogado. Parece ser a ex-esposa.
Ex-esposa.
A palavra atravessou o peito de Zelica.
'Quacy... o que é isso?', ela sussurrou. 'Quem é ela? Por que está na nossa casa? Por que está usando minhas roupas?'
Quacy suspirou irritada, como se fosse um estorvo.
— Acabou, Zelica — disse ele. — Vamos conversar lá embaixo. Não faça escândalo.
Ele entrou no corredor e fechou a porta atrás de si, deixando Aniya trancada em segurança lá dentro.
Zelica o seguiu em silêncio até o elevador, com a mente vazia e o corpo dormente. O leve aroma do perfume caro de Aniya impregnava o roupão de Quacy, causando-lhe náuseas.
O elevador abriu para o saguão movimentado. Pessoas passavam. Algumas observavam-nas ir e sentiam a tensão no ar.
Quacy a conduziu a um canto tranquilo junto às janelas de vidro com vista para a Peachtree Road.
— Explique-me — disse Zélica, com a voz quase inaudível. — Por favor.
— O que mais há para explicar? — respondeu ele friamente. — Acabou.
'Terminou?' Ela prendeu a respiração. 'Depois de dez anos? Depois de eu cuidar da sua mãe quando ela teve um derrame? Depois de termos construído tudo do zero juntos?'
Ele riu – brevemente e cruelmente.
'Construídos juntos?', zombou ele. 'Não se iluda. Meu sucesso se deve a mim mesmo. Você é apenas... um fardo.'
Ela olhou fixamente para ele.
— Você foi embora para cuidar da sua mãe — continuou ele, estreitando os olhos. — Você se esqueceu dos seus deveres como esposa.
“Minhas tarefas?”
— Sim. Basta olhar para você. —
Ele gesticulou na direção dela com evidente desgosto.
— Desleixada. Exausta. Sou um dos melhores desenvolvedores. Preciso de uma parceira do meu nível, não de uma dona de casa acabada.
Zélica sentiu como se visse um estranho falando através do rosto do marido.
'Então, Aniya... isso já vem acontecendo há algum tempo', ela sussurrou.
— Um ano — disse Quacy sem hesitar. — Ela me entende.
Nesse instante, um segurança do prédio se aproximou, caminhando desajeitadamente com uma pequena bolsa esportiva surrada nas mãos.
Zelica reconheceu imediatamente.
A mesma bolsa que ela usava quando eles tinham acabado de se mudar para Atlanta – quando não tinham nada além de sonhos.
— Senhor — disse o guarda em voz baixa, evitando o olhar dela —, o Sr. Quacy pediu-me para trazer isto.
Quacy entregou a bolsa a Zelica.
— É tudo o que você precisa — disse ele. — Leve isso com você e vá.
E assim, a vida que ela considerava segura desapareceu repentinamente.
Mas o que Quacy não sabia...
era que a única coisa que ele não havia tirado dela
era justamente o que o destruiria.
Aquele cartão bancário gasto que o pai dela havia deixado para trás.
Quacy agarrou a sacola e a jogou aos pés de Zelica. Um pouco do conteúdo caiu. Apenas algumas roupas velhas e uma carteira.