CAPÍTULO 3: O TESTE DO ARMAZÉM
À meia-noite, a orla de Seattle era uma paisagem de água salgada e diesel. O velho casaco de Sarah não oferecia nenhuma proteção contra a neblina, mas a adrenalina a mantinha aquecida.
Ela chegou ao Píer 59. Um SUV preto estava parado na sombra. Um homem com um fone de ouvido fez um gesto para que ela apontasse para uma pesada porta de aço.
Lá dentro, o armazém era uma catedral de contêineres. No centro, sob uma única fileira de lâmpadas industriais, estava Ethan Sterling. Sem paletó. Mangas arregaçadas. Seus antebraços estavam tensos enquanto ele lia uma pilha de documentos de transporte.
— Você está dois minutos adiantado — disse ele, sem levantar os olhos. — Se você está na hora, está atrasado.
Por que estou aqui, Sr. Sterling?
"Eu te coloquei à prova esta noite", disse ele, recostando-se. "Fiz exigências ridículas. Eu te insultei. A maioria das pessoas teria cuspido na minha comida ou desmaiado. Você executou tudo perfeitamente. Você viu a crosta. Você viu que eu era canhoto e moveu a taça de vinho. Você tem um olhar atento aos detalhes, algo que falta aos meus principais gerentes porque eles estão muito focados no panorama geral para enxergarem as rachaduras na base."
Ele bateu com uma pilha de papéis na mesa. "Meu departamento de logística está perdendo dinheiro. Milhões. Meu diretor financeiro diz que é o combustível. Meu conselho administrativo diz que é o mercado. Acho que estão mentindo. Você tem uma hora para descobrir o problema. Se descobrir, eu pago a cirurgia do seu filho. Se não, pago o táxi para você voltar para casa."
Sarah não hesitou nem por um instante. Ela pegou os papéis.
Durante quarenta e cinco minutos, o único som era o zumbido das luzes. Sarah, que se acostumara a lidar com essas contas ao longo de anos dividindo contas complicadas e administrando um orçamento doméstico apertado, percebeu o padrão imediatamente.
'Não é o combustível', disse ela, com a voz estrondosa. 'Vejam os pesos. Contêiner 405. Peso de partida: 500.000 libras. Peso de chegada: 480.000 libras. São sempre eletrônicos de ponta ou tecidos de luxo. E são sempre aprovados pelo mesmo supervisor: 'M'.'
Ela apontou para uma coluna secundária. "A balança do guindaste registra o peso máximo. O livro de registro do supervisor registra o peso mínimo. Alguém retira de 5% a 7% dos bens valiosos antes da colocação do lacre e, em seguida, falsifica o livro de registro."
Sterling se levantou. Caminhou até a assinatura e a examinou. Seu rosto empalideceu e depois enrijeceu.
— M — sussurrou ele. — Marcus Thorne. Meu cunhado.
Ele olhou para Sarah e, pela primeira vez, o Rei do Gelo pareceu humano. Ele enfiou a mão no bolso, tirou um talão de cheques e escreveu com energia frenética.
'Valor: 200.000 dólares', leu Sarah, ofegante.
— Isso é por hoje — disse Sterling. — Mas tenho uma proposta maior. Estou cercado de tubarões, Sarah. Preciso de uma rêmora. Uma faxineira. Alguém que veja a casca de limão na minha empresa. Venha trabalhar para mim. Assistente executiva, oficialmente. Meus olhos e ouvidos, minha realidade. US$ 250.000 por ano. Plano de saúde particular para o seu filho. Você pode se mudar para a ala de hóspedes da minha propriedade já amanhã.
Sarah olhou para o cheque. Olhou para o homem. "Você vai me destruir se eu falhar, não é?"
— Eu te mato se você mentir — corrigiu Sterling. — Bem-vinda ao reino, Sarah. Tente não ser devorada.
CAPÍTULO 4: O TANQUE DOS TUBARÕES
A propriedade dos Sterling era uma fortaleza de vidro e pedra. Em quarenta e oito horas, Leo estava na melhor ala infantil do país e Sarah vestia um terno azul-marinho que custava mais do que seu carro antigo.
Mas a propriedade não era um refúgio. Era um campo de batalha.
Na biblioteca, Sarah conheceu sua maior inimiga: Veronica Vance, a noiva de Ethan.
— Então, essa é a "ajuda"? — Verônica falou baixinho, olhando para Sarah com seus olhos verdes gélidos. — Uma garçonete, Ethan? Sério? Conheço uma moça legal da agência de empregos temporários que fala mandarim e sabe quais talheres usar.
— Eu sei qual garfo usar, Srta. Vance — disse Sarah, com a voz calma e ameaçadora. — Passei cinco anos preparando-os. Também sei distinguir quando alguém está com fome de quem está apenas fingindo comer.
O sorriso de Verônica desapareceu. "Dou a ela uma semana."
— Ela vai ficar — disse Ethan resolutamente. — Sarah, prepare-se. Temos um jantar de gala beneficente hoje à noite. No Museu Histórico. Toda a diretoria estará lá.
A festa de gala foi um turbilhão de luzes piscantes e champanhe. Sarah se movia pela multidão como um fantasma, uma garçonete invisível em um vestido de grife. Ela não se misturava com os convidados; ela ouvia.
Ela ouviu sussurros perto dos recintos dos dinossauros.
A fusão é uma bagunça.
Sterling perde o controle.
Verônica está pressionando para que a diretoria vote no próximo mês. Ela quer a presidência.
O coração de Sarah deu um salto. A presidência?
Ela encontrou Ethan no bar. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma voz alta soou atrás dela.
“Espere um minuto! Eu te conheço!”
Era Coburn, um magnata do ramo imobiliário e cliente assíduo do Ljardan . Ele estava com o rosto vermelho e bêbado. "Você é a garçonete! Aquela com a criança doente! Você entrou aqui escondida para implorar por uma gorjeta, querida?"
Um silêncio se instalou no quarto. Verônica estava por perto, com um sorriso cruel nos lábios.
— Ela é minha convidada — trovejou a voz de Ethan, cortando o tom de deboche. Ele deu um passo à frente e, possessivamente, passou o braço em volta da cintura de Sarah. — E minha conselheira. Se você falar com ela desse jeito de novo, Coburn, eu compro sua cobertura e te expulso daqui amanhã de manhã.
Coburn empalideceu e saiu correndo. Ethan olhou para Sarah. "Você está bem?"
— Estou bem — sussurrou ela. — Mas tenho a casca de limão. Sua noiva não está apenas planejando um casamento, Ethan. Ela está tramando um golpe. Ela já convenceu os membros do conselho a votarem no mês que vem para te destituir.
Uma taça de champanhe estilhaçou-se no chão.
Verônica estava a um metro e meio de distância, o rosto uma máscara de puro e absoluto ódio. "Seu rato de rua mentiroso", ela sibilou.
— É verdade, Verônica? — A voz de Ethan baixou para um tom assustadoramente grave.
“Ethan, não dê ouvidos a ela! Ela está tentando criar uma intriga entre nós—”
— Analisei as contas da Fundação Evergreen esta manhã, Verônica — interrompeu Sarah, dando um passo à frente. — As mesmas contas que Marcus usou para esconder os bens roubados? Elas foram assinadas em conjunto pela sua empresa pessoal. Você não apenas assumiu a presidência. Você o explorou até a última gota antes mesmo de se casarem.
Havia um silêncio sepulcral no museu.
CAPÍTULO 5: O CALOR DO REI DO GELO
As consequências foram rapidamente perceptíveis. Quando o sol nasceu sobre Puget Sound, Veronica Vance já era considerada uma pessoa indesejável e Marcus Thorne enfrentava acusações federais.
Sarah estava na varanda da ala de hóspedes e observava a névoa subir da água. Ela ouviu a porta de vidro deslizar e abrir. Ethan estava lá, com aparência cansada e a gravata desabotoada.
"A cirurgia de Leo será daqui a quatro horas", disse ele. "O avião particular está pronto para nos levar ao hospital."
Obrigado, Ethan. Por tudo.
— Não precisa me agradecer — disse ele, aproximando-se. — Você tinha razão. Eu me concentrei no panorama geral. Esqueci que o mundo é feito de pequenas coisas. As cascas. As chalotas. A verdade.
Ele estendeu a mão, hesitando por um instante, antes de afastar uma mecha de cabelo solta do rosto dela. O Rei Gelado derreteu.
'Você me disse uma vez que faria tudo o que estivesse ao seu alcance', ele sussurrou.
“Sim, eu fiz isso.”
Ótimo. Porque tenho um novo projeto. Vamos reconstruir completamente o departamento de logística. E preciso de um parceiro que saiba exatamente qual garfo usar – e quais tubarões abater.
Sarah sorriu, um sorriso sincero e radiante que chegava aos olhos. Ela não era mais uma garçonete. Ela era a arquiteta dos detalhes.
"Vamos primeiro cuidar da operação do meu filho", disse ela, pegando na mão dele. "Depois disso, podemos nos preocupar com os tubarões."
Enquanto caminhavam em direção ao carro que os aguardava, o recibo com o valor zero estava emoldurado na mesa de Ethan – um lembrete de que as coisas mais valiosas da vida às vezes vêm de um homem que não deixa nada para trás e de uma mulher que tem tudo a perder.
CAPÍTULO 6: OS FRAGMENTOS DE SILÍCIO