Quando eu tinha 5 anos, a polícia disse aos meus pais que minha irmã gêmea havia morrido – 68 anos depois, conheci uma mulher que era exatamente igual a mim.
Ela estava secando a louça. Suas mãos pararam.
"Ela não é", disse ela.
"Por que?"
Meu pai interrompeu.
"Chega!", ele disse bruscamente. "Dorothy, vá para o seu quarto."
Meu pai esfregou a testa.
Mais tarde, eles me sentaram na sala de estar. Meu pai olhava para o chão. Minha mãe olhava para as próprias mãos.
"A polícia encontrou Ella", disse ela.
"Onde?"
"Na floresta", ela sussurrou. "Ela se foi."
"Foi para onde?", perguntei.
Meu pai esfregou a testa.
Um dia eu tive um gêmeo.
"Ela morreu", disse ele. "Ella morreu. É tudo o que você precisa saber."
Não vi nenhum corpo. Não me lembro de um funeral. Nenhum caixão pequeno. Nenhuma sepultura para onde me levaram.
Um dia, eu tive um gêmeo.
No instante seguinte, eu estava sozinho.
Os brinquedos dela desapareceram. Nossas roupas combinando sumiram. O nome dela deixou de existir em nossa casa.
"Doía?"
No começo, eu ficava perguntando.
"Onde a encontraram?"
"O que aconteceu?"
"Doía?"
O rosto da minha mãe se fechou em uma expressão impassível.
"Pare com isso, Dorothy", ela dizia. "Você está me machucando."
Eu cresci assim.
Eu queria gritar: "Eu também estou sofrendo."
Em vez disso, aprendi a ficar calada. Falar sobre Ella era como jogar uma bomba no meio da sala. Então, engoli minhas perguntas e as carreguei comigo.
Eu cresci assim.
Por fora, eu estava bem. Fazia minha lição de casa, tinha amigos, não causava problemas. Por dentro, havia um vazio enorme onde minha irmã deveria estar.
"Quero ver o processo."
Quando eu tinha 16 anos, tentei combater o silêncio.
Entrei na delegacia sozinho, com as palmas das mãos suadas.
O funcionário da recepção olhou para cima. "Posso ajudar?"
"Minha irmã gêmea desapareceu quando tínhamos cinco anos", eu disse. "O nome dela era Ella. Quero ver o processo."
Ele franziu a testa. "Quantos anos você tem, querida?"
"Dezesseis."
"Algumas coisas são dolorosas demais para desenterrar."
Ele suspirou.
"Sinto muito", disse ele. "Esses registros não são públicos. Seus pais teriam que solicitá-los."
"Eles nem sequer dizem o nome dela", eu disse. "Disseram-me que ela morreu. Só isso."
Sua expressão suavizou-se.
"Então talvez você devesse deixar que eles resolvessem isso", disse ele. "Algumas coisas são dolorosas demais para desenterrar."
Saí de lá me sentindo estúpida e mais sozinha do que antes.
"Por que desenterrar essa dor?"